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  • Portugal fora do Ciência Sem Fronteiras e o “jeitinho”

    Ciência Sem FronteirasEsta semana li uma notícia sobre a retirada de Portugal da lista dos destinos disponibilizados pelo programa Ciência Sem Fronteiras, algo que aconteceu no final do mês passado. O ministro da Educação, Aloízio Mercadante, retirou Portugal da lista para impulsionar os estudantes a aprender outros idiomas. “Queremos que os estudantes enfrentem a questão da língua, que todos aprendam uma nova língua”, disse Mercadante.

    Embora esta notícia tenha intrigado,  houve outra medida que me chamou mais a atenção. Em fevereiro, o governo brasileiro reduziu as exigências, no que diz respeito ao conhecimento de Inglês para quem deseja fazer intercâmbio, pelo fato de muitos alunos estarem sendo reprovados no TOEFL e no IELTS  e, por isso, as vagas não estarem sendo preenchidas. O que para muitos pode ser uma ótima novidade, para mim parece o famoso “jeitinho” entrando em ação.

    No TOEFL a nota mínima passou de 72 para 47, com obrigatoriedade de 6 meses de curso de Inglês no destino, caso o estudante consiga 57 tem que cumprir 3 meses de curso de Inglês. Já no IELTS a nota passou de 5.5 para 4.5, com 6 meses de curso de Inglês no país de destino. Tudo isso parece super interessante, mas no fim do curso há a repetição da prova e, se for reprovado, o estudante é recambiado. Assim, o governo vai estar mandando estudantes sem proficiência em Inglês para fora, esperando que em 6 ou 3 meses eles aprendam tudo o que têm que aprender, para que o investimento não seja jogado fora. Essa “flexibilização” da exigência de proficiência parece muito arriscada.

    O governo pretende “obrigar” os estudantes a irem para países onde se fala Inglês, mesmo que o seu nível seja fraco (desde que cumpram os outros requisitos exigidos), fazendo com que pessoas que querem progredir academicamente esbarrem com barreiras linguísticas, que não deveriam fazer parte das suas preocupações enquanto estudantes de graduação, pós-graduação e afins. No entanto, não irá permitir que esses mesmos estudantes, que não têm nível de Inglês satisfatório, façam intercâmbio para um país no qual não enfrentariam essas dificuldades. No fundo, ou você se sai (mais ou menos) bem na prova e faz intercâmbio ou você não vai, porque em Portugal você não aprenderia outro idioma. Eu entendi bem? Fazer intercâmbio e se especializar só importa se for em outra língua?

    Tudo bem, a ideia de oferecer cursos de Inglês no país onde o estudante irá fazer o intercâmbio é muito boa. Porém, os cursos deveriam ser oferecidos mesmo que o estudante passasse nas provas, porque, como quem lida com Inglês diariamente sabe, saber um segundo idioma não é ter um papel que o comprove, mas sim estudar e praticar continuamente. Afinal, falar outra língua não é como andar de bicicleta.

    Daí que eu não entenda a lógica do ministro. Mercadante parece querer corrigir uma falta de investimento no ensino de outros idiomas durante o percurso escolar obrigatório com esta medida. Sem lembrar que, muitas vezes, os estudantes poderão não conseguir passar na prova, mesmo cursando Inglês no país de destino. Além de estar vetando a possibilidade de estudar em Portugal, uma preferência que pode existir por questões linguísticas, financeiras ou acadêmicas.

    Talvez, só talvez, se o investimento no ensino de Inglês e outros idiomas fosse maior durante o percurso escolar obrigatório, a diminuição dos níveis de exigência e exclusão de um país, para fazer com que estudantes brasileiros “enfrentem a questão da língua”, não fossem medidas necessárias.